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A História dos Fogos em Pernambuco São João, época de fogos. Pelas ruas dos subúrbios e arruados interioranos a meninada solta busca-pés, rojões, peidos-de-velha, estrelinhas, queimam rodinhas e caraduras. Girândolas, lágrimas e fogos de vista iluminam os céus. Pouca gente pergunta quem está por trás de toda essa barulhada, toda essa claridade, alegrando o povo. Concorrendo com as fábricas de pouca inspiração e muita propaganda vivem no esquecimento os fogueteiros populares, artesãos do efêmero. Notícia de fogueteiro, desde os primeiros tempos do Diário de Pernambuco, é só de acidentes. Estórias de fogueteiro são narrativas tragicômicas de fabriquetas que explodiram, convertendo em vulcões os morros, onde os artesãos haviam construído a sua morada e tenda de trabalho. Os
europeus – portugueses, holandeses, espanhóis e italianos –
trouxeram para o Brasil a tradição da técnica e da arte dos fogos de
artifício que receberam dos chineses, através de indianos e árabes.
Certamente os primeiros fogos de artifício não terão vindo com
Cabral, nem Caramuru terá com eles conquistado a vida, entre os índios
que programavam comê-lo, no festivo banquete. É possível que no São
João de 1603, de cuja festa nos dá notícia frei Vicente do Salvador,
não houvessem faltado fogos. Certamente também não deixaram de
espocar na inauguração da primeira ponte de Nassau, na célebre festa
em que o boi voou no Recife. Logo cedo terão ocorrido os primeiros
acidentes, resultado dos abusos, pois como bem informa Pereira da Costa,
em 7 de agosto de 1715 foi proibido que se lançassem foguetes no Recife
e Olinda. No ano seguinte, como a medida não estivesse sendo levada a sério,
foi estabelecida pena de dois meses de cadeia e multa de 50 mil réis. A
tradição estava, porém, implantada e os fogos continuariam, de uma
forma ou de outra, a freqüentar as páginas da nossa história. O artesão e o fabrico Os fogos de artifício são feitos basicamente de salitre, carvão vegetal e enxofre, ao que se costuma acrescentar, para obtenção de efeitos luminosos – nitrato de chumbo, bário (para obter o verde), sódio (amarelo), cobre (azul) e limalhas de ferro para o efeito de chispas. Olímpio Bonald Neto, em seu livro Bacamarte, pólvora e povo, registra uma composição de pólvora doméstica: salitre-do-chile, enxofre e carvão vegetal, que deve ser pilado junto com uma garrafa de cachaça, para dar liga. Os fogueteiros compram salitre e outros ingredientes no Recife, em Caruaru ou outro centro comercial importante. O carvão é de fabricação local. Muitos fogueteiros têm seus próprios fornos para preparar o carvão, tanto por segurança como para baratear o produto. O carvão deve ser de maniva de mandioca ou macaxeira, aveloz, umburana, piranha ou outra madeira fofa, a fim de que o mesmo possa tornar-se pó com facilidade. Os outros materiais usados são – a taboca, cortada em diversos tamanhos, e enrolada em cordão para não rachar, que consituirá o canudo (cápsula) onde se coloca a massa; o cordão – que, ensebado, passado no breu ou encerado, é usado para enrolar a taboca; papel grosso em geral de material que serviu para embalagem (saco) de cimento ou adubo; papel comum, mesmo usado; papel colorido – de diversas qualidades e tipos, para embalagem e acabamento final. Da qualidade da matéria-prima depende não apenas a qualidade do produto, mas a segurança do próprio trabalho. A presença de corpos estranhos no salitre ou no carvão pode provocar atritos e explosões, no momento de colocar a massa no funil. É por isso também que todos os ingredientes são sempre peneirados antes de fazer a mistura para a massa. Para
o trabalho de fogueteiro são necessárias diversas ferramentas manuais,
como o pilão (grande, de madeira) usado para preparar a massa; o
engenho, para enrolar as tabocas; o badoque, para furar a massa, já
depositada na taboca, permitindo inserir o ingrediente que faz subir os
fogos; o ferrinho, para socar a massa, etc. Antigamente
as tendas eram instaladas nas próprias casas de morada do fogueteiro.
Hoje as autoridades, que também controlam a aquisição de matéria-prima
e exigem registro do artesão, determinam que as oficinas sejam
estabelecidas em prédios isolados, pelo menos a A tenda de fogueteiro é uma oficina basicamente artesanal, com poucos equipamentos e trabalhadores. Em geral é dirigida por um fogueteiro que goza de prestígio na comunidade e redondezas e uns poucos auxiliares, recrutados, de preferência, na família ou pessoa de muita confiança. As rotinas de trabalho exigem cuidados e precauções, quase sempre cumpridos, mas que nem sempre são suficientes para evitar acidentes. Incêndios e explosões em tendas de fogueteiro usualmente representam perdas totais e uma vez iniciados não é possível extingüi-los antes do consumo de todo o material, equipamento e prédio. A localização das tendas em lugares ermos impede o socorro imediato. Nos acidentes, há sempre perdas de vida ou redução à incapacidade para o trabalho. A profissão de fogueteiro, como a maioria das atividades de fogo e ferro, com ferreiros e forjadores, é atividade reservada a homem. No agreste de Pernambuco, porém, encontram-se algumas mulheres desenvolvendo aticidades no fabrico de fogos. São auxiliares das atividades dos maridos, ocupando-se da preparação das caixas, dos embrulhos de papel ou são viúvas, herdeiras das tradições do marido, quase sempre falecidos em acidentes. É curioso registrar que as mulheres em atividade no ramo dos fogos de artifício não se consideram fogueteiras e em geral fazem apenas fogos-de-chão. Alegam que no processo de elaboração dos fogos-de-subida (e de vista) é necessário operar ferramentas pesadas demais para a capacidade física feminina. Fora os auxiliares que se encarregam das tarefas menores e preparatórias, há três categorias de fogueteiros: os que fazem fogos-de-chão, que não são considerados propriamente fogueteiros; os que fazem fogos-de-subida, que são os verdadeiros fogueteiros; e os que além dos fogos-de-subida fazem peças de fogos-de-vista, e alcançam uma posição de respeito e admiração entre os companheiros. A alegria, sonho e esperança de todo fogueteiro é poder preparar para a próxima festa um espetáculo de beleza e vida, luz e som, que surpreenda e extasie, por momentos efêmeros seus expectadores, antes que a morte o atraiçoe e faça da explosão de sua tenda e de sua vida, o último e lúgubre espetáculo de fogueteiro que não fugiu da sina. Pequeno glossário Badoque:
Ferramenta usada para furar a taboca, depois de preparada, a fim de
colocar o último dos ingredientes, dos fogos-de-subida. Tem a forma de
um arco indígena. |